domingo, 19 de dezembro de 2010

Cambaleávamos pelas ruas

As ruas já estavam quase vazias. O que restava éramos nós – meus amigos e eu. Nós já estávamos mais do que bêbados, estávamos num estado inexplicável de loucura. A minha sanidade já não era a mesma, agora que havia me utilizado de todo tipo de entorpecente. Renata, minha “amiga”, estava quase no mesmo estado que eu. Já não respondia por si. A madrugada estava fria, a chuva que dera de tarde ainda deixava os últimos resquícios. Resquícios esses que penetravam se infiltrando em meus tênis velhos e desbotados. Molhava meu pé, e me fazia sentir uma espécie de frio em que não se consegue pisar no chão com firmeza. Os pássaros começavam a cantar, era muito estranho, ainda estava de madrugada. Parecia que tais bichos haviam antecipado seu ritual para nos receber embaixo de seus ninhos. Ao passar embaixo das árvores, podemos sentir as saudações de pássaros, que ao nos verem, começaram a cantar. Andávamos como verdadeiros ébrios, vagando conforme o vento. É um estado que se pode definir como “automático”. Nós não precisamos de esforços, só precisamos seguir. Nossas pernas parecem ter vida própria, depois de tantas e tantas noites que fizeram esse percurso. Elas são quem nos salvam. Se essas não tivessem aprendido esse caminho molhado e frio no qual passamos agora, nós ainda estaríamos bebendo no boteco do outro bairro. Esse boteco já presenciou muitas discussões. No meio de cervejas e cigarros, nós discutíamos coisas relacionadas à política, música, questões sociais, e causas não tanto interessantes para pessoas normais. Causas que abordam temas polêmicos (coisa de maluco). Foram quase 6 cervejas só pra terminar de discutir a teoria da Terra Oca. Já os cigarros, nem contei. Nossos corpos já cambaleavam conforme as pernas ditavam o caminho. Já devíamos estar perto de casa. Durante todo o percurso, não havíamos falado nada um ao outro. Não precisava de falatório nenhum, já tínhamos discutido tudo no boteco. Agora só o que nos restava era horizontalizar nossos corpos para que nossas pálpebras, meio-abertas, possam descansar finalmente e fecharem-se.

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