Nivy havia falado em habilidades. Só agora eu podia entender, era fantástico, eu podia ouvir claramente o que as pessoas conversavam, o que falavam ao celular. Mas uma conversa em especial me intrigou, parecia um casal discutindo. Choros, palavrões, e tapas. Não era possível, eu podia ouvir também o barulhinho que a criança fazia na barriga da mulher. Ela estava grávida!
Fui seguindo o som, e me aproximando de um prédio. Queria voar, e foi isso que fiz, não sei exatamente como. Passava sobrevoando as janelas e me aproximando de onde vinha aquele barulho todo. Para entrar, eu não precisava abrir nada, só meu espírito estava presente ali, e ele só se materializaria se fosse realmente necessário.
Passei pela janela, e dei de cara com um homem alto, barbudo e gordo batendo em sua mulher. A cena era de horror.
Num ato de impulso, me posicionei entre o casal, de forma que ele parou de batê-la, estendeu as mãos no ar com a face virada para seus olhos, e ficou olhando. Depois falou
- O que eu to fazendo? Desculpa, meu amor, eu não queria fazer isso.
Lembrei-me mais uma vez de quando Nivy me falava de habilidades. Lembrei-me também das duas irmãs que fazem trabalhos opostos. Enquanto Nivy faz de tudo para salvar-nos, Morte faz questão de manipular-nos para que matemos a nós mesmos. Era de arrepiar.
A mulher estava sangrando. Olhava-me tristonha e quase conformada com o que haveria de acontecer. Então ela me agradeceu, e todo o sangue que existia ali desapareceu, ela conseguiu pôr-se de pé. Como aquilo era possível? Não posso imaginar. Mas tinha certeza que Deveria sair daquele local, pois havia uma criança esperando por mim lá fora, e que dependia de mim.
Mas eu não conseguia andar, um vento me prendia ao chão. Para onde eu tentava me movimentar, a ventania vinha de encontro ao meu corpo, que demonstrava fraqueza. O vento de encontro a mim vinha de todos os lados. O tapete que estava embaixo dos meus pés se batia, só o que o prendia ao chão era o peso do meu corpo. A mulher me olhava com um rosto de mãe, uma expressão que me trazia conforto. O homem já não estava presente ali. E então, de repente, só existia eu e os ventos, mais nada.
A mulher só poderia estar grávida de gêmeos, pois até ali eu só havia salvado uma pessoa, um menino. Eu não entendia muito bem o porquê de eu não continuar a missão. Mas deveria ser isso.
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